Pai ou Amigo? – A Demissão em massa dos Pais e das Mães

“A evolução é o caos dentro de limites muito bem definidos” – Charles Darwin
Hoje escrevo sobre um fenómeno que me preocupa bastante: a demissão dos Pais.
Quem é Pai e Mãe sabe concerteza que, apesar de todos os planos feitos, de todo o investimento na aprendizagem e em formação, de toda a entrega e amor, todos os dias nos apresentam desafios parentais de difícil resolução.
Comecemos por analisar o objectivo principal de quem é Pai/Mãe. Será que esse objectivo passa por ter um filho campeão (na escola, no desporto, na música, etc)? Ou será que passa por lhe dar todas as condições que nunca tivemos para que ele possa ser quem nós nunca fomos? Qualquer que seja o vosso, ele é importantíssimo pois é ele que vai condicionar todas as escolhas que fazes durante cerca de 20 anos! O meu é simples: quero que os meus filhos sejam felizes, autónomos e responsáveis, capazes de tomar boas decisões, conscientes do seu impacto nos outros e no planeta.
Definida a nossa “filosofia” enquanto Pai/Mãe, inicia-se a fase da execução. Esta é a fase que terá uma duração mínima de duas décadas e para a qual nunca ninguém nos preparou convenientemente.
A INSTRUÇÃO é obtida em muitos locais: escola, clube, instituto de línguas, piscina, escuteiros, pavilhão, etc. Já a EDUCAÇÃO vem sempre do mesmo: a casa que a criança habita. No caso de pais separados, a este aspecto deve ser dada uma ainda maior atenção e monitorização.
Crescer é aprender a tomar boas decisões. Aprender a adiar a recompensa. Aprender a dizer adeus.
Crescer é aprender. Aprender é mudar. Para que esta mudança seja de boa qualidade são imprescindíveis os bons instrutores. Bons professores, treinadores, monitores.
Mas crescer é também aprender a ser bem educado. Aprender que tudo o que fazemos influencia os outros. Aprender a dominar os nossos comportamentoe e as nossas emoções. Para que a educação seja eficaz são necessários Bons Pais.


Acontece que ser Pai/Mãe não é nada fácil. Ser amigo é muito mais fácil e soltinho.
Apesar da maior influência que todos temos enquanto crianças serem os nossos Pais, por volta dos 12 anos eles são substituídos, ao nível das nossas “referências”, pelos amigos. 
Penso que é sabendo disto ou antecipando a adolescência que uma cada vez maior percentagem de Pais/Mães tem feito a escolha cómoda de… se demitirem de ser Pais!
Como ocorre esta demissão? Não apresentam nenhuma declaração ou requerimento. Apenas optam pelo caminho mais fácil. O caminho da amizade ao invés do da parentalidade.
Ser educador implica conseguir servir as necessidades de quem educamos. Quem é amigo serve, regra geral, as vontades. Não as necessidades.
Ao “servir as necessidades” chamamos AMOR DURO. 
Ao “servir as vontades” chamamos AMOR MOLE.
Para servirmos as necessidades temos que as conhecer. Saber em que momento elas ocorrem e quais as várias formas de as servir. Este serviço implica investigação e estudo permanentes. É cansativo e obriga os educadores a tomar decisões muitas vezes desagradáveis (dolorosas mesmo), impopulares e incompreendidas pelos educandos e pelos outros pais que não habitam a nossa casa.
Já servirmos as vontades implica apenas ouvi-las ou conhecê-las. Menos estudo e muitíssimo menos planeamento. É agradável e origina sorrisos das mais variadas escalas. Este serviço implica apenas disponibilidade para darmos o que nos pedem. Origina também, impreterivelmente, jovens manipuladores que começam a encontrar em tenra idade traços de personalidade que os poderão ajudar a chegar longe por se servirem dos outros a seu bel-prazer. Primeiro os meus pais, depois o mundo!
Como os nossos filhos não conhecem muitas vezes as necessidades que têm, à medida que a infância avança surgirão momentos em que esse “servir as necessidades” não será nada bem aceite pelos nossos descendentes. Como Pais, ir-nos-á custar. Esses são os momentos decisivos em que nos devemos perguntar “Mas eu sou Pai ou Amigo?”
É fácil perceber o porquê de tantos jovens adultos estarem hoje a demitir-se da sua função maravilhosa de Pais para abraçarem a cómoda posição, muito mais tentadora no imediato, de serem apenas amigos dos seus filhos. A pressão social quase nos esmaga e, convenhamos, é sempre preferível ver o nosso filho com um sorriso rasgado a lambuzar-se de chocolate do que a fazer birras para comer o que lhe faz melhor, por exemplo. Mais, quem nos garante que, após um raspanete mais vigoroso, eles não se zangam connosco… para sempre?! Ui, esse é mesmo o maior pesadelo de alguns pais, atrevo-me mesmo a dizer.
Ao escolhermos ser “os melhores amigos” em vez de Pai/Mãe/Filhos estamos também a criar um problema grave que se virá a notar durante a adolescência e que causará grande desgostos, não aos filhos mas aos pais. É que enquanto somos crianças precisamos que nos sejam indicados os limites, com a maior clareza possível, para que o mundo comece a “fazer sentido”. Daí as histórias dos “bons e dos maus” e do mundo inicialmente absoluto a “preto e branco” que depois vai naturalmente ganhando a restante paleta de cores que tornam esta vida tão fascinante. 
Como o nosso cérebro se desenvolve rapidamente até aos 25 anos, é natural que até esta idade essa construção dos limites seja decisiva para uma vida adulta regrada e feliz em sociedade. Se preferirmos ser amigos em vez de Pais enquanto os nossos filhos são crianças, essa definição de limites será descurada. Apesar de termos servido as vontades (neste caso, a de não ter limites) ignorámos uma das necessidades mais básicas que todos sentimos. E as necessidades não desaparecem se não lhes dermos resposta. Assim, a consequência de sermos apenas amigos na infância dos nossos filhos é a de que eles não nos reconheçam enquanto Pais fornecedores de AMOR DURO e que, assim que chegue a adolescência e encontrem esse AMOR DURO num amigo ou amiga prefiram mil vezes estar com eles do que com os Pais. É nesse momento da adolescência que quem investiu em ser Pai/Mãe verá reacções de afastamento naturais e reversíveis ao passo que quem investiu em ser amigo verá reacções de afastamento mais profundas e irreversíveis. Em poucas palavras, pais que escolhem ser amigos são substituídos aos 12-13 anos por garotos que se ocuparão do trabalho que tinham estado a fazer: educar os jovens filhos.
As três questões pricipais que me costumo colocar são: 
1. Estou a ser Pai/Mãe ou apenas amig@?
2. Sou capaz de dar o difícil AMOR DURO? Ou, nesta situação, só consigo dar AMOR MOLE? Precisarei de ajuda?
3. Confio assim tanto nos valores e nas competências de quem nasceu há uma dúzia de anos para lhes entregar os meus filhos, ainda por cima sem os limites principais bem definidos por nós, seus pais?
Muito obrigado por me terem acompanhado até aqui enquanto vos expunha esta minha preocupação crescente. Qual a vossa opinião? Com que medidas podemos ajudar-nos mutuamente a reforçar o AMOR DURO?
Muito Obrigado pela atenção e colaboração!

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